TAREFA 1
PESSOA CRIATIVA
Uma pessoa criativa é Hermeto Pascoal. O Músico-Hermeto é a forma. Ela lhe fornece a possibilidade de extravasar a sua essência criativa. Eu tive a oportunidade de estar com Hermeto Pascoal em algumas ocasiões, e uma delas foi dirigindo o seu show, por meio de um projeto realizado pela Secretaria de Cultura do Estado do Espírito Santo, em 2010. Hermeto "exala" criatividade em muitos momentos e situações, seja durante o seu show ou em uma situação cotidiana, quando no restaurante, no jantar após o show, ele brincava com o garçom flamenguista (Hermeto torce para o Fluminense), improvisando sons com a voz, uma colher e com a gravata do garçom. Tive a chance de presenciar bem de perto Hermeto "comprovisar" música no instante do show, desviando-se do roteiro, improvisando a própria forma da situação, por causa da multidão que assistia ao seu show pelo telão, do lado de fora do teatro porque não conseguiu entrar devido a superlotação. Noutra ocasião, em outro evento, quando autografava folhetos, discos de vinil, CDS, um estudante de música entregou a ela o seu caderno com pentagramas para ser autografado. Era meu aluno e eu estava perto. Quando olhei para Hermeto, ele estava com os olhos voltados para cima, contrito, com a caneta numa mão e o caderno na outra. Após alguns minutos nessa posição, virou-se para o caderno e escreveu uma melodia e o acompanhamento harmônico (aqueles peculiares), compostos naquele instante, e em seguida, entregou ao estudante. Soube depois, pelo meu próprio aluno, que ele tatuou os primeiros compassos da música nas suas costas. Entre os muitos atos criativos de Hermeto Pascoal, gostaria de destacar um que ainda hoje me chama a atenção: a criação de um sample com uma harmonização que acompanha a narração, o grito de gol e o "tiruliruli" do locutor de futebol Osmar Santos, gravado no seu álbum "Lagoa da Canoa Município de Arapiraca". Ela harmoniza cada evento sonoro contidos nos contornos da linha melódica da voz de Osmar Santos, com destaque para o seu emblemático grito de gol. Hermeto Pascoal nos mostra como é viver sendo arte. Ele pensa a música como parte dele mesmo, não como uma disciplina técnica apenas.
Link para apreciação da música: https://youtu.be/DNDN829StVc
EVENTO ESTÉTICO CRIATIVO
O filme de Bryan Singer “Superman Returns” conta uma estória sobre o Superman (Brandon Routh), quando retorna ao planeta terra depois de um longo período ausente. O longa, lançado pela Warner Bros (WB) em 2006, caracterizou-se por ser uma produção não tão bem sucedida do universo da DC sobre o herói dos HQs. Entretanto, há nele uma cena que considerei criativa e me chamou bastante atenção pela forma de utilização da música. Na cena, ela é usada como elemento diegético e promove o estado de tensão entre a Lois Lane (Kate Bosmorth) e o Bandido “Bad Boy”, capanga do Lex Luthor (Kevin Spacey). A situação de cena se passa no iate de Lex Luthor, onde Lois Lane e seu filho de seis anos de idade, se encontram sequestrados e aprisionados. O uso da música como um mecanismo estilístico e de seus elementos estruturais básicos– melodia, harmonia e ritmo –, conferiram a ela o status de elemento responsável por guiar a percepção do espectador em meio aos “climas” de relaxamento e tensão, responsáveis pelo suspense da cena. O que realmente chamou a atenção pelo valor criativo foi como os elementos estruturais e estilísticos foram utilizados, ou seja, a maneira como cada estrutura básica da música se configurou como “instrumento” para a produção de um signo referente ao suspense. Isso se nota quando Lois Lane incita o seu filho a ir até o piano e tocar para se distrair. Ao sentar ao piano, a criança toca uma melodia de característica infantil – uma melodia com tal característica, geralmente é composta com poucas notas, exigindo uma emissão vocal sem muito esforço, devido às pequenas variações que a voz precisa produzir para executá-la. A melodia infantil é, na maioria das vezes, de fácil execução e de fácil apreensão, portanto, pode ser aprendida e cantada em um período de tempo relativamente curto. O ritmo é geralmente simples e “marcado”, propondo uma regularidade que pode levar ao relaxamento. A harmonia é a parte da música que “apoia” uma melodia com outros sons – graves, médios e agudos – simultâneos, e que traz a sensação de “preenchimento”. Também causa a sensação de que a melodia está sempre “acompanhada” e nunca “sozinha”. Na música infantil, a harmonia tem um ciclo padronizado com poucos acordes (complexos sonoros de 3 ou mais notas simultâneas) e, em geral, é construído com a repetição incessante do mesmo padrão. Além disso, o ritmo regular e repetitivo ajuda a produzir a sensação de relaxamento por sua previsibilidade. A pergunta que surge, então, é: como é possível provocar tensão, relaxamento e suspense numa cena audiovisual utilizando uma música com tantas características infantis? A cena mostra o bandido “Bad Boy” se aproximando do menino enquanto ele toca a melodia, sentando ao piano, ao lado da criança, para tocar um acompanhamento rítmico-harmônico. Dessa forma, há certa “segurança”, pois, enquanto o acompanhamento rítmico-harmônico está sendo tocado, o bandido estará distraído. A cena usa a melodia num registro agudo, demonstrando “o lado” do piano em que está a criança e representando-a como signo. A harmonia, usa notas de preenchimento na região média e grave, apresentando um “corpo” sonoro maior, por isso, representa a presença do bandido. Enquanto isso, Lois Lane, aproveita a distração para enviar uma mensagem de socorro via fax. A ideia central da cena é que, enquanto escutamos o acompanhamento rítmico-harmônico na cena, temos alguma certeza de que Lois Lane estará segura, pois o bandido estará ao piano, executando a harmonia junto à criança. A função da harmonia, como preenchimento, segurança ou apoio à melodia infantil, é usada como uma ferramenta de mídia para construir um signo de relaxamento, causado pela presença do bandido no piano, e outro de tensão, causado pela ocultação do bandido do piano. No momento em que escutamos a melodia sem o acompanhamento sentimos a tensão, pois percebemos na ausência da sequência rítmico-harmônica, a ausência de harmonia, não sabemos onde está o bandido. E, então, quando oculto, o bandido será sempre um risco, podendo aparecer a qualquer momento e em qualquer lugar. Considero a cena criativa por essa utilização da música e por conseguir alcançar o suspense com um estilo de música comumente apreciado como infantil.
O link para apreciação da cena: https://youtu.be/uW7z3LkHy5A
Doriedison Coutinho de Sant'Ana
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