1.1. Muitas pessoas passam pela minha cabeça, mas escolho Jô Bilac, por ser alguém próximo da minha geração e por já ter participado da montagem de um dos seus textos. Um dramaturgo carioca de apenas 37 anos, que coleciona obras impactantes desde 2006, como "Limpe Todo O Sangue Antes Que Manche O Carpete", " "Alguém Acaba de Morrer Lá Fora", "Conselho de Classe" e "Insetos". Seus trabalhos sempre trazem personagens muito complexos, mostrando a dualidade e ambiguidade da natureza humana (ele foi bastante influenciado por Nelson Rodrigues), além disso seus textos fluem com muita facilidade entre o humor e a tragédia. A dualidade de seus texto os tornam mais críveis e palpáveis. A forma como são abordadas temáticas (nem sempre de forma explícita) como educação, política e relações de poder em suas obras, motiva o público a debater e se verticalizar mais sobre os assuntos abordados. Acredito que ser criativo é ter a capacidade de criar "diálogos" com quem entra em contato com o que foi criado, e Jô Bilac faz isso com maestria.

Jô Bilac, foto divulgação.
1.2. Cito os espetáculos "Insetos" (escrita por Jô Bilac) da Cia dos atores, e "Once on this Island", como os mais criativos que já entrei em contato. Os dois espetáculos abordam temáticas sociais, como política e racismo respectivamente, mas trazendo na encenação elementos do cenário e figurinos que são constantemente ressignificados em cena. Na peça "Insetos" um imenso êxodo desequilibra a natureza. O colapso é eminente. Os gafanhotos tentam destruir tudo, mas se veem diante de uma nova ordem imposta pelo louva-a-deus. Nesse universo, o olhar sobre o humano ganha uma nova perspectiva, atravessada pela realidade dos insetos. Câmaras de pneus são utilizados para construir a imagem do besouro, já duas varetas são utilizadas como os olhos do louva-a-deus, essas imagens potencializam o texto e provoca a criatividade do espectador. Já em "Once on this Island" a história começa com uma tempestade, fazendo uma garotinha chorar de medo. Para confortá-la, os contadores de histórias da aldeia contam-lhe a história de Ti Moune, uma camponesa que se apaixona por um homem rico. A plateia é colocada em um teatro arena, com o centro do palco coberto de areia, a orquestra fica na parte de cima de um caminhão que também serve de entrada e saída para as coxias. A medida que contam a história vão se transformando nos personagens em cena, uma toalha de chita que estava na mesa vira a saia de uma delas, o catador de lixo adapta os seus sacos plásticos em uma espécie de colar e a catadora de latinha cria uma barbatana de coca-cola. As ressignificações mostram que podemos transformar tudo ao nosso redor e ao mesmo tempo convidam as percepções externas para completar/contribuir com o que foi criado, mas ainda deixa abertura para novas leituras. Esses dois espetáculos refletem o que eu acredito sobre criatividade e o poder que ela tem em criar signos/significados utilizando os mais diversos elementos cênicos.
Espetáculo "Insetos" - Cia dos atores.
"Once on this Island", Broadway, 2017.
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