Tarefa 1 - Realocação da Publicação Original que foi feita como comentário da descrição da tarefa 1.

 1.1 - Sempre entendi que - normalmente - as crianças, por possuírem a mente mais livre de receios e amarras, ao brincarem, em grande parte do tempo, estão criando e recriando. Me lembrei então de um desenho animado chamado “ Pink Dinky Doo” (https://youtu.be/A72q5NcK5ls) que retrata várias situações problemas que são resolvidas com criatividades por uma menininha, seu irmão mais novo e com a participação constante de um porquinho da índia. Em muitos episódios a menina dizia: “ É, pessoal, a gente não vê isto todo dia”. Isto para mim é uma frase que precisa vir à minha mente ao ver algo e, então, considerar este algo criativo. Então, este será o critério que utilizarei para mensurar a criatividade nesta primeira atividade. Chamarei ele de critério “ Pink Dink Doo”.

Ao pensar sobre pessoas criativas que eu me deparei, encontrei uma certa dificuldade em achar quem se encaixasse no critério que eu expus acima. Isto pode ser um problema meu, por estar em um meio (a música erudita - mais especificamente a música coral) aonde o respeito à tradição e a repetição de modelos estabelecidos historicamente são bastantes valorizados. Também porque as “inovações” que tive contato, na maioria das vezes, me pareceram apenas aproveitamento de uma situação ou fato pontual que pôde chamar a atenção momentânea, mas que não trazia em si um valor contínuo e duradouro. Posso citar por exemplo quando o Coral da USP, há 7 anos, se aproveita do sucesso da música popular “ Beijinho no Ombro” e a canta em um arranjo inicialmente com características próprias de coral tradicional (https://youtu.be/fhrSv8ltMdA) . Chamou a atenção, mas não gerou, ao meu ver, nenhuma contribuição maior para a inovação ou renovação da prática coral. Não que não considere o arranjo criativo, mas pensando no valor prático do resultado da ação eu vejo que não é tão especial assim, na medida em que de vez em quando vemos algo parecido já há muito tempo na música coral e mesmo em muitas bandas militares também tem se utilizado deste recurso de se aproximar mais do público em geral tocando músicas mais populares ao invés dos tradicionais dobrados e fanfarras. Não passa pelo critério “Pink Dink Doo” de criatividade. O vídeo do “ Beijinho no Ombro” do Coral USP certamente alcançou um público maior do que se tivesse sido uma gravação de uma música convencional de coral. O vídeo alcançou em 7 anos mais de 229 mil visualizações, o que é um número bastante impressionante para uma peça coral brasileira. Em vários dos 268 comentários postados é possível perceber opiniões que divergem desta que expus, na medida em que elogiam a inciativa, enxergando como grande renovação e inovação. Por exemplo, um comentário nos diz: “Reconectando gerações, criando novas formas de educar e o canto coral se renovando pra nos impressionar. Parabéns incrível coro nacional” – Dicas de Roberth (comentário do You Tube há 5 meses)

Num sentido semelhante - de ligação entre mundos diferentes, mas com resultados mais impressionantes - eu vejo a música do MC Fioti que se utiliza do tema inicial da Partita em La menor para flauta solo de Johan Sebastian Bach e cria o funk “Bum-Bum-Tam–Tam” (https://youtu.be/_P7S2lKif-A). Eu entendo que o resultado apresentado pode criar uma ponte, uma abertura para que possamos apresentar aos jovens que gostam de funk, a música original de Bach e então trazer informações de que como uma música do século de XVII conseguiu chegar até os dias de hoje sem que existisse na época, nem gravação, nem napster ainda, muito menos youtube, spotfy, etc. Isto pode levar a que outras músicas de Bach possam ser buscadas e revisitadas em estilos diferentes como também já aconteceu no choro, no rock e no jazz. Eu utilizei este recurso quando estava dando aula para uma turma de uma escola regular em que o “TRAP” era o estilo de música mais apreciado pelos alunos meninos. Creio que é uma boa ponte, mas não sei se está sendo muito atravessada ainda. Isto não deixa de caracterizar o MC Fioti como bastante criativo; o bastante para leva-lo a ter o primeiro vídeo brasileiro que alcançou mais de 1 bilhão de visualizações no Youtube, tendo hoje mais de 1,6 bilhões de visualizações só considerando o vídeo oficial original. Apesar de tê-lo citado aqui, certamente o MC Fioti não será a pessoa escolhida por mim para ser a pessoa mais criativa que eu já me deparei porque parece que ele ficou só nesta criação única.
Mas, considerando o meio coral que é o meu trabalho, quem poderia se encaixar no critério “Pink Dink Doo”? Talvez a última grande inovação que tenhamos visto no meio coral tenha sido apresentada inicialmente pelo compositor Eric Wilthacre que no ano 2010 lançou o primeiro coral virtual com a participação de cantores de 12 países diferentes cantando sua composição “Lux Aurunque”. Em 2011 ele lançou o segundo vídeo “Sleep” com a participação de mais de 2000 mil cantores de diversas partes do mundo. Naquele tempo era algo que se encaixava muito bem na frase; “É, pessoal, isso a gente não vê todo dia”. Em 2017 eu fiz o meu primeiro vídeo de coral virtual inspirado no que fez o Whitachre, mas sem nem 1% da condição técnica que ele possuía. Em 2020, em razão da pandemia do Covid 19, corais de todo o mundo viram nesta possibilidade a melhor forma de se manter em atividade. Atualmente, todos os dias, algum coral no mundo lança um vídeo de coral virtual ou “coral em mosaico” como chamamos aqui no Brasil, e, por mais elementos diferentes que os vídeos apresentem podemos dizer que os apreciadores da música coral estão um pouco saturados destas “novidades”. Continuaremos fazendo enquanto for necessário, mas a volta da tradicional e boa apresentação presencial é o que a maioria anseia.
Não escolherei o Eric Withacre para ser o meu personagem criativo porque ele inovou, trouxe um importante contributo para a música coral, mas continuou sendo criativo apresentando apenas inovações que pertenciam mais ao universo da tecnologia do que à música coral em si. E acredito que devemos ser muito mais criativos para não nos sujeitarmos às imposições da tecnologia, fazendo dela nossa aliada e não nosso direcionador principal. Neste aspecto, ele falhou.
Pensei em outros nomes como do compositor John Rutter. A música dele não apresenta nenhuma grande novidade em relação à linguagem coral tradicional, mas mesmo com suas similaridades ele consegue fazer algo simples, diferente e belo a cada nova composição. Ele é muito criativo e profícuo compositor, mas caso eu o escolhesse precisaria trocar o meu critério “Pink Dink Doo” por um outro que envolve somente o gosto pessoal, muito subjetivo.
Por fim, pensei no professor e compositor Jorge Antunes que é reconhecidamente o primeiro a introduzir a música eletrônica no Brasil. Ele inovou nos instrumentos utilizados, nos temas das músicas, nas propostas, no uso de diferentes texturas instrumentais e vocais, na associação da música com as cores embasado nos seus conhecimentos de física. Ainda não ouvi a sua última ópera “Leopoldina” que foi terminada em 2021 em Paris, onde esteve patrocinado pelo prêmio Icatu de Artes. Suponho que, quando tivermos a possibilidade de ver a obra sendo posta em ação, teremos elementos novos em diversos aspectos, pois assim foi assim na vida e na obra do maestro Jorge Antunes. Por diversas décadas criando sempre coisas novas, eu escolho este professor também por ser o personagem com quem tive maior proximidade e oportunidade de realizar algumas de suas obras e sempre tive a impressão de que era algo que eu não via todos os dias.
1.2 - Sobre a performance mais criativa que eu já entrei em contato eu não vou escrever tanto. Reafirmo que o meio que eu costumo prestigiar vem sempre reproduzindo formas e modelos bastante tradicionais que seguem um padrão bastante comum. Alguns corais buscam ter uma performance mais dinâmica com movimentos e danças, mas os que tive oportunidade de assistir pessoalmente acabavam comprometendo o som em função das coreografias. Há muitos anos eu tive uma experiência positiva neste sentido que foi assistir o Coral Juvenil de Erechim se apresentando em um encontro de corais em Cabo Frio, RJ. Me lembro de ter ficado bastante emocionado e impressionado com o som que o coral produzia ao mesmo tempo em que realizava movimentos coreográficos perfeitamente relacionados com a intepretação dramática da obra que originalmente foi composta apenas para ser cantada. O falecido maestro José Luiz da Silva que regia o coral de Erechim, teve uma breve passagem pela Universidade Católica de Brasília e recebeu algumas críticas em relação a sua abordagem de técnica vocal para coral juvenil, mas eu pessoalmente considerava o seu trabalho com os adolescentes muito admirável.
Fora isto, não creio que sejam performances essencialmente criativas, mas muito bem produzidas, eu assisti a impressionantes performances na Broadway (Fantasma da Ópera, Finding Peter Pan, Os Miseráveis, Anastasia, Frozen), também o Natal Espetacular com a Rockets no Radio City em Nova York e o espetáculo “Jesus” apresentado no Sight and Sound Theatres em Lancaster, Pensilvânia, EUA. Nem sempre uma superprodução vai realmente ser uma produção criativa pois poderá estar repleta de soluções recorrentes como trocas rápidas de cenários, figurinos, etc. No caso de Lancaster é impressionante o recurso tecnológico em que realmente chove no palco, o barco é balançado nas ondas em meio a uma tempestade e num instante tudo fica seco e calmo. Não é nada mais do que a representação de uma história conforme relatada na Bíblia. A solução tecnológica é incrível, mas não é uma criação sensacional em termos artísticos propriamente ditos. Diferente era o caso do Coral Juvenil de Erechim que não tinha nada de tecnológico mas trazia uma riqueza artística visual e situacional muito grande ao espetáculo que comumente era só auditivo.
Eu não estava conseguindo me lembrar o nome da obra que também assisti uma vez ao vivo com o Nebraska University Choir num Encontro de Corais no Rio de Janeiro. A música se chama Past Life Melodies da compositora Sarah Hopkins. Ela faz uso de uma técnica em que os chamados "overtones" ou sons harmônicos resultantes apareçam na sala da apresentação formando uma belíssima melodia que parece uma flauta sendo tocada por alguém do além. Apresento aqui dois vídeos apresentando esta técnica, mas só vivo é muito mais impressionante.

Os overtones aparecem aqui a partir de mais ou menos 4:30 de música: https://youtu.be/MDHFEkrvBSA

Uma cantora que sozinha faz isto lindamente é a Ana Maria Helefe. Acho que vale a pena conhecer pois também não é algo que vemos todos os dias. https://youtu.be/vC9Qh709gas

https://youtu.be/UHTF1-IhuC0 . Neste vídeo a explicação fica mais fácil de entender.

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